Vida em Condomínio
Até Monet se surpreenderia
A pintura das
casas têm de seguir um padrão de cores, afinal, é um condomínio. Ok, Regina e
Lucas não se importam com isso e até entendem, pois faz todo sentido. Logo que
pegaram as chaves da casa, a primeira casa própria do casal, um sonho,
precisaram fazer alguns (vários) ajustes, personalizar alguns cômodos a seu
gosto e necessidade e refizeram a pintura de toda a casa: por dentro e por
fora.
Por dentro,
bem, cada um é dono de seu quadrado, e resolveram colocar branco “neve”. Depois
perceberam que “neve” e “gelo” são ambos gelados, mas não iguais,
definitivamente não, especialmente quando se trata de cor de parede de uma casa
que tem um cachorro como o Brutus. O ideal mesmo seria pintar tudo de marrom,
mas aí ficaria um pouco tétrica. Resolveram fazer textura camurça em uma das
paredes de dois cômodos: são as únicas paredes hoje que ainda não mudaram de
cor...
Do lado de
fora, aproveitando a construção da churrasqueira e a reforma de parte do piso –
antes de perceberem que dali a um tempo teriam de tirar toda a grama que o
Brutus pisava, raspava, se enrolava, e entrava em casa depois de uma chuva –
também refizeram a pintura. Mas essa, ah, nessa tarefa o Seu Zé, o pintor, fez
uma obra de arte impressionante (quase impressionista) e foi especialmente
pró-ativo. Era para pintar apenas as paredes que ficam no corredor e na parte
de trás da casa, num tom de pêssego próximo ao da fachada (já que este não
precisaria ser refeito e teria uma especificação técnica apropriada). Tamanha a
iniciativa deste pintor que, quando Regina e Lucas chegaram depois de um dia
cansativo de trabalho quando haviam deixado o pintor e sua equipe nos
trabalhos, viram a obra de arte. A pintura se destacou de tal forma na fachada
da casa que ficou fácil dar a referência para as visitas: “a casa é aquela
diferente de todas, que parece um pêssego quadrado e ainda por cima com
textura.”
Quando
questionado por Regina, seu Zé, humildemente, se justificou: “tinha sobrado
tinta e eu achei que a parte de fora precisaria de uma pintura, assim ficou
tudo igual”. Tudo igual só que diferente, né Seu Zé? Agora vamos ser punidos!
Sim, “punidos” é o termo exato que se encontra em praticamente todos os
comunicados de dona Marilda, a síndica. Depois Regina ficou arrependida de ter
deixado o homem sem dormir, coitado, lembrando-se de seus olhos arregalados que
entregavam uma culpa imensa.
Eles estavam
só esperando pela multa. Dali a alguns dias, perceberam que o pintor tinha
feito escola ou pegou outros serviços no condomínio, porque pelo menos mais
umas dez casas estavam lá ao estilo “Seu Zé”. Relaxaram. Pelo menos não
levariam multa sozinhos e não vestiriam a carapuça quando recebessem um e-mail
de dona Marilda – daqueles que só ela sabe mandar, com indiretas do tipo:
“certos moradores que não seguem o padrão da pintura vão ser punidos. Chato,
né?” É, não estavam sozinhos nessa.
Nunca
receberam o tal e-mail, acho que até a casa de dona Marilda foi personalizada,
e olha que algumas casas tinham se superado nas obras de arte de seus autores.
O fato é que, quatro anos depois, chega um comunicado avisando que já está na
hora de os condôminos providenciarem a pintura de suas casas. O e-mail, por um
milagre, não foi finalizado com “Chato, né?” Mas é que não era uma bronca, e
sim, uma ordem para que todos seguissem os padrões, que dessa vez vieram com
marca, numeração, e até nome da loja e vendedor. O prazo para a pintura, dez
meses a contar da data do comunicado. Alguns comunicados depois reforçaram a
mensagem, como o que orientou que a pintura deve contemplar todo o exterior da
casa: fachada, laterais e fundo. Obviamente desnecessário. Certamente, logo vai
chegar algum que mereça o encerramento típico de dona Marilda – “Chato, né?”
Enquanto
isso, Regina e Lucas estão priorizando outros gastos, que não incluem uma árvore
que o vizinho resolveu plantar por conta própria e cobrar 50% do casal, mas que
são necessários antes mesmo da pintura. E quando chegar a hora, vão ter de
enfrentar a difícil tarefa de procurar um pintor com serviço bom e barato. Não
vai ser fácil, eles já preveem. Ah, e o mais importante: sem qualquer
proatividade, porque agora, certamente, a punição vai ser aplicada aos
desobedientes.
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