Um par de ouvidos

 

“Moça, você consegue um curso de engenharia pra mim?” Poderia ser um par de sapatos, uma muda de roupa, um cobertor ou um café com leite que estávamos distribuindo ali. Na verdade, André já tinha se servido do lanche matinal. Mas em meio a tantos pedidos que ouvimos nos domingos em que levamos um pouco de solidariedade aos moradores de rua, aquele me instigou a ouvi-lo ainda mais. Queria saber de sua história. E talvez ele estivesse precisando apenas de um minuto para falar e alguém para escutar.

Nem sei se seu nome realmente é André, pois quando pedi autorização para filmá-lo, disse que era tímido, mas me permitiu fazer a imagem sem que seu rosto aparecesse. Baiano, desviou da pergunta sobre sua idade, mora nas ruas há “um tanto de tempo” e faz bicos em construção civil. “Queria estudar engenharia, continuar a trabalhar com construção civil, aprender um pouco mais pra ver se saio dessa vida”, disse, com o olhar distante.

E que vida seria essa? – o perguntei. E novamente a resposta que, infelizmente, é a mais comum entre todas ali: “Drogas”. Mostrou sua tatuagem no braço direito, com o nome da filha de 15 anos que deixou na Bahia – Janaína – junto com outros familiares que não soube (ou não quis) dizer quem são. Queria falar, mas às vezes recuava. E aos poucos fui me mostrando solidária à sua história e percebi que ele queria ser ouvido, por mais evasiva ou confusa que fosse sua fala.

“Quero contar minha situação pra senhora”. Nesse momento, a ‘moça’ já havia virado ‘senhora’, e acho até que por respeito, pelo simples fato de ter lhe cedido um minutinho de atenção, para além do café entregue. Não contou muito mais do que isso, voltou ao assunto de que queria estudar, mas a engenharia civil, a filha, a Bahia... tudo já havia ficado pra trás na história que agora seguia com a dificuldade em morar nas ruas, dormir ao relento e ouvir vários “nãos”. Percebi que o “sim” que eu poderia lhe dar, naquele momento, era apenas alguns minutos de meu dia, um ombro e um par de ouvidos. Só por isso, espero que já o tenha acalentado um pouco.

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