Eu me preocupo com você
Embora o “muito obrigado” quase sempre seja pronunciado, a
gratidão daquelas pessoas é percebida de tantas outras formas! No prazer de
sentir o aroma do sabonete do kit higiene de uma forma tão especial como se
fosse um caro perfume importado. No brilho dos olhos ao escolher o banco da
praça para o deleite do café com lanche, num minuto de paz interior. E até na
pressa em sair para um canto para borrifar o desodorante que acabou de ganhar.
Vemos que há sorrisos, ainda que escondidos sob as máscaras. Sim, porque agora,
em época de pandemia, aprimoramos nossa leitura de olhares!
São gestos como estes que nos fazem ter a esperança de que a
dignidade é algo que entregamos junto com nosso café da manhã solidário.
Samira, personagem já conhecida por aqui, me olha depois de
ter se servido, e confessa estar triste e preocupada. Quando a questionei sobre
o motivo, me conta de um problema de visão que vai exigir uma cirurgia. No
momento, acreditei que estivesse precisando de um conselho. Eu, na humildade de
minha ignorância sobre o assunto, sem conhecimentos de medicina para lhe
orientar, só consegui dizer que cuidasse da higiene dos olhos com muita
atenção. E creio que era o que ela precisava. Uma simples demonstração de algo
como: “Eu me preocupo com você”.
Quando eu já estava entrando no carro para ir embora, ela me
chama pelo nome, numa cumplicidade já identificada ali. “Renata, posso te pedir
uma coisa, só entre nós?” Já imaginando que iria solicitar ajuda financeira pra
cirurgia ou uma intervenção com algum profissional de saúde, ela diz: “Da
próxima vez que vier, chame suas amigas e veja o que tem na sua penteadeira que
possa me trazer? Um brinco, um colar, um creminho...” Era apenas um minutinho a
mais de atenção para se sentir, se ver e ser vista.

Comentários
Postar um comentário