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Um traço de felicidade

Interessante como vamos mudando a referência do que é felicidade. Depois de receber um prognóstico extremamente difícil no dia em que trouxe meu pai ao pronto socorro, tudo parecia escuro, sombrio. E realmente foram dias nebulosos, tristes, aqueles seguintes à sua entrada no hospital. Sem esperança de sair com vida naquela primeira noite, ele nos surpreende com um exame ao qual resistiu. Um tantinho de felicidade nos invadiu. Na primeira visita à UTI, saí aos prantos ao vê-lo intubado. No dia seguinte, mais uma dose de felicidade quando extubou (conheci esse termo agora) e acordou. Mas a gente quer mais. Não é legal vê-lo acordado absorvendo toda aquela rotina de uma UTI. E seu Alceu nos presenteia com mais um tanto de alegria ao ser levado para o quarto. Agora estamos aqui, nos revezando entre irmãs, no meio de uma pandemia, e enfrentando cada minuto com uma coragem que, por vezes, é difícil de resgatar. A cada respiração mais profunda, a cada gemido, queremos trocar de lugar com ele ...

A gratidão está nos detalhes

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Aquelas horas aos domingos, para nós, são momentos de gratidão. São oportunidades de ajudar, de estender um braço, um ouvido, uma mão. A cada duas semanas, levamos um simples – mas aquecido (em todos os sentidos!) – café da manhã às pessoas em situação de rua que ficam na Praça Dom Pedro II, em Jundiaí, ou “Praça das Rosas”, como é popularmente conhecida. Somos um grupo de amigos que resolveu se juntar para proporcionar um pouco de dignidade a essas pessoas. Preparamos tudo na véspera com muito carinho e, no dia da ação – que já começamos até a chamar “Café com Sorrisos” – levamos, além dos lanches e de um kit higiene com papel higiênico e sabonete, nossos corações abertos para doar e receber. Doamos nosso tempo, nossa atenção, nossos ouvidos e, quando possível, algumas palavras de alento. Nem sempre temos algo a dizer. Muitas vezes, apenas ouvimos e mostramos que nos importamos, de verdade. Uma preocupação genuína que deve ser visível aos invisíveis, pois eles se aproximam com sua...

Eu me preocupo com você

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Não é preciso ter um único personagem pra perceber que as histórias são similares: o vício das drogas, a distância da família – por opção ou abandono -, a sensação de ser invisível. E vamos reconhecendo algo mais em comum entre as pessoas que recebem o café da manhã e outras doações que distribuímos na Praça das Rosas: gratidão. Embora o “muito obrigado” quase sempre seja pronunciado, a gratidão daquelas pessoas é percebida de tantas outras formas! No prazer de sentir o aroma do sabonete do kit higiene de uma forma tão especial como se fosse um caro perfume importado. No brilho dos olhos ao escolher o banco da praça para o deleite do café com lanche, num minuto de paz interior. E até na pressa em sair para um canto para borrifar o desodorante que acabou de ganhar. Vemos que há sorrisos, ainda que escondidos sob as máscaras. Sim, porque agora, em época de pandemia, aprimoramos nossa leitura de olhares! São gestos como estes que nos fazem ter a esperança de que a dignidade é algo que...

Um par de ouvidos

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  “Moça, você consegue um curso de engenharia pra mim?” Poderia ser um par de sapatos, uma muda de roupa, um cobertor ou um café com leite que estávamos distribuindo ali. Na verdade, André já tinha se servido do lanche matinal. Mas em meio a tantos pedidos que ouvimos nos domingos em que levamos um pouco de solidariedade aos moradores de rua, aquele me instigou a ouvi-lo ainda mais. Queria saber de sua história. E talvez ele estivesse precisando apenas de um minuto para falar e alguém para escutar. Nem sei se seu nome realmente é André, pois quando pedi autorização para filmá-lo, disse que era tímido, mas me permitiu fazer a imagem sem que seu rosto aparecesse. Baiano, desviou da pergunta sobre sua idade, mora nas ruas há “um tanto de tempo” e faz bicos em construção civil. “Queria estudar engenharia, continuar a trabalhar com construção civil, aprender um pouco mais pra ver se saio dessa vida”, disse, com o olhar distante. E que vida seria essa? – o perguntei. E novamente a re...

Café, pão e um grão

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 “Por que você mora na rua?”, pergunto. Depois do silêncio que acompanha um olhar perdido, Samira me responde, pela primeira vez introspectiva naquela manhã: “Drogas”. Percebo um misto de sentimentos em sua resposta: culpa, medo, tristeza, indiferença. Por que ela teria de dar uma resposta tão sincera a uma pessoa que havia visto pela primeira vez? Rolou uma empatia entre nós, coisa do momento. Fui puxando conversa até sentir uma identificação. Ela já tinha se servido do cafezinho com lanche que entregamos e esperava pela distribuição de roupas. Quem sabe naquela sacola haveria um vestido?! “Faz oito dias que não troco de roupa”, havia dito minutos atrás. Um café, um pão, uma conversa, uma escuta, uma peça de roupa, um ombro - não no sentido literal da palavra, pois guardamos o distanciamento social exigido em épocas de coronavírus. Assim começamos uma ação entre amigos, procurando levar aos que vivem na rua um pouco do que temos para dar. Sabemos que ali há histórias diversas - ...

Mil dias

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Somos de uma família de descendentes de italianos, que se abraçam, que se tocam, para quem sempre há um motivo para beijar. Somos de uma família que se reunia aos domingos, ansiando pela macarronada, o falatório à mesa, a bagunça organizada da arrumação da cozinha após o almoço. O distanciamento social, para nós, é algo que até há pouco era impensável de acontecer e impossível de ser praticado. Mas estamos aqui, distanciados, sobrevivendo. E creio que sou privilegiada por não ter tido perdas entre meus queridos ou sofrendo necessidades básicas. Quando vejo meus pais, com a mobilidade reduzida ou quase nula, sei que sentem falta do contato físico com a gente, com os netos, com todos da família. Sei que queriam estar apertados de tantos abraços, entrelaçando os braços nos nossos ou recebendo mil beijos no rosto até perder as contas. Fico triste por isso. Imagino o que devam estar pensando, prevendo, sentindo. Aí vem minha mãe e diz:   “Mil dias”. Ao perguntar-lhe sobre...

A quinta florada

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Um kalanchoe branco, com apenas algumas florzinhas Chegou em suas mãos e ganhou ainda mais vida Um presente singelo para uma tia querida Um pequeno regalo, uma lembrança, eu pensava Mas que a seus olhos, que tudo de bom enxergava Era a demonstração do amor de suas sobrinhas Um bolo e um café, uma gelatina colorida Mesmo sem ter ou poder, sempre nos ofertava Afinal, nosso bem-estar era o que mais importava Até em seu leito de hospital, parecendo se desligar Penso que sabia de tudo, ela queria nos testar Queria mesmo demonstrar que tudo o que existe é vida! E assim, novo ciclo começa de nossa flor mais amada Como o humilde vasinho, que floresceu quatro vezes Aos cuidados de um anjo, em apenas alguns meses Dessa vida conosco, desfrutou com louvor E no jardim mais elevado, em pétalas de amor Chegou o momento de sua quinta florada!