Receita de família?
Nunca ela fazia menos de 10 pizzas. E não era nas formas
redondas que hoje são o padrão que encontramos por aí. Eram tabuleiros
retangulares, que rendiam cantos a quem gostasse de massa, como eu, que corria
pra pegar logo as fatias das pontas, pedaços com um pouco de borda ou as fatias
do meio. A Pizza Napolitana, que minha mãe fazia a partir de uma receita da
família (napolitana mesmo, pois meu avô que infelizmente nunca cheguei a
conhecer era um italiano legítimo de Nápoles), era o centro de muitas reuniões
entre a família e amigos.
Aquelas pizzas viram namoros começando, pedidos de
casamento, de ombros para chorar, comemorações de aniversário, reuniões de
escola e muitos outros encontros com tanta gente que não saberia mencionar
agora. Muitas vezes nem era preciso um motivo pra dona Eliza fazer as pizzas.
Bastava um tanto de farinha e outros ingredientes que não me atrevo a arriscar
aqui, uma mesa pra ficar enfarinhada, boa vontade e tomate, muito tomate. O
molho ficava por conta do meu pai, com os tomates picados quase que
milimetricamente medidos, assim como a arrumação da mussarela, numa organização
de dar inveja a qualquer chef.
Mas uma vez os ingredientes extrapolaram o tradicional e a
Pizza Napolitana rendeu muitos comentários. Foi um concurso promovido por um
jornal da cidade – quando eu ainda nem sonhava em ser jornalista – que selecionou
a pizza da dona Eliza. Ela mandou a receita, eles fizeram, provaram, aprovaram
e pronto. Ela foi selecionada. Nem me lembro se houve algum prêmio, mas o fato
é que a publicação da receita nas páginas do jornal já a deixaria muito feliz.
Finalmente poderia compartilhar sua experiência gastronômica herdada da família
(que ela garante até hoje não ter segredo algum). E a receita foi publicada.
No dia seguinte, fui abordada na escola, minhas irmãs no
trabalho, pelos colegas e foi um zum-zum-zum de comentários de todos os tipos sobre
a tal Pizza Napolitana da dona Eliza. Opiniões divididas. Alguns afirmaram ter
adorado um dos ingredientes, que nunca haviam experimentado em uma pizza e que
deu um toque especial. Outros,
educadamente, confessaram que não gostaram do sabor. E outros
tantos disseram que não foi possível fazer a pizza, pois a receita não
especificava a quantidade certa do produto, apenas que era “um punhado” de
salsicha.
Salsicha? Sim, um simples erro de digitação deixou de lado o
toque tão especial da salsinha, que realmente pode ser medida por “um punhado”.
Pelo menos deu o que falar. Não aprendi a fazer a pizza da minha mãe, não tenho
dotes culinários, mas confesso que até hoje sinto curiosidade de experimentar o
gosto da salsicha na pizza que nunca me arrisquei a fazer. E a dúvida que
sempre me intrigou: será que, na elaboração da receita para a escolha da
vencedora, foi realmente levado em conta o ingrediente diferenciado? Gosto não se discute.
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