Mil dias
Somos de uma família de descendentes de italianos, que se abraçam, que se tocam, para quem sempre há um motivo para beijar. Somos de uma família que se reunia aos domingos, ansiando pela macarronada, o falatório à mesa, a bagunça organizada da arrumação da cozinha após o almoço. O distanciamento social, para nós, é algo que até há pouco era impensável de acontecer e impossível de ser praticado. Mas estamos aqui, distanciados, sobrevivendo. E creio que sou privilegiada por não ter tido perdas entre meus queridos ou sofrendo necessidades básicas. Quando vejo meus pais, com a mobilidade reduzida ou quase nula, sei que sentem falta do contato físico com a gente, com os netos, com todos da família. Sei que queriam estar apertados de tantos abraços, entrelaçando os braços nos nossos ou recebendo mil beijos no rosto até perder as contas. Fico triste por isso. Imagino o que devam estar pensando, prevendo, sentindo. Aí vem minha mãe e diz: “Mil dias”. Ao perguntar-lhe sobre...