Prova de obstáculos
Depois
de enfrentar o trânsito de Jundiaí no fim da tarde de uma sexta-feira (sim,
Jundiaí tem tamanho pra ter trânsito), filas de espera pra passar embaixo do
túnel (sim, Jundiaí tem túnel), “espertinhos” tentando costurar e cortar a
frente pra chegar dois minutos antes, Regina, enfim, entra com seu carro no
condomínio. “Agora”, pensa, “dá pra relaxar porque o trânsito ficou pra trás. Vou
tomar um banho, esperar o Lucas chegar de São Paulo, dar comida pro Brutus e vamos
abrir um vinho pra, enfim, curtir a sexta-feira depois de uma semana tão
corrida”.
Mas
ao fechar o portão automático atrás dela (desta vez, funcionou), começa uma
verdadeira prova de obstáculos com bicicletas: algumas jogadas no chão, outras,
com seus respectivos donos. Bicicletas de todos os tamanhos, assim como seus “pilotos”,
em todas as velocidades. Regina pensou, por um minuto, que dona Marilda, a
síndica, tivesse enviado algum comunicado sobre o “Dia da Bicicleta”, o dia em
que seria proibido entrar de carro no condomínio pois o domínio seria dos
veículos sob duas rodas.
O
que fazer? Parar pra deixar as bicicletas passarem? Era melhor então deixar o
carro pra fora e ir a pé, porque o movimento não tinha fim. E quanto às jogadas
no chão, no meio da rua? Daí Regina se lembrou que aquilo era a rotina de praticamente
todos os dias de verão. Não havia um dia especial da bicicleta nem uma prova
anunciada. O malabarismo para desviar das crianças era diário.
Nada
contra andar de bicicleta, até porque era uma das atividades que Regina mais
gostava na infância. Mas e o pagamento extra na tarifa mensal do condomínio pra
pintar as faixas vermelhas exclusivas? E os pais e mães das crianças pelo menos
pra olhar e orientar as mais novas... onde estavam? E o lugar de guardar as
bicicletas quando as crianças não queriam mais andar era... hum.... no chão, no
meio da rua?
Bom,
ela nem se arriscou a reclamar, afinal, iriam surgir comentários que o “casal sem
filhos” (ela sabia que os vizinhos se referiam a ela e Lucas desta forma),
certamente, não entende nada de bicicletas ou de crianças. Manteve seus 10 Km por
hora, o olhar atento e pensou somente se o escolhido da noite seria um Malbec
ou um Cabernet Sauvignon, depois, é lógico, de enfrentar a “prova da bicicleta”
com seu labrador que nunca foi treinado pra passear.
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