Mil dias
Somos de uma família de descendentes de italianos, que se
abraçam, que se tocam, para quem sempre há um motivo para beijar. Somos de uma
família que se reunia aos domingos, ansiando pela macarronada, o falatório à
mesa, a bagunça organizada da arrumação da cozinha após o almoço.
O distanciamento social, para nós, é algo que até há pouco
era impensável de acontecer e impossível de ser praticado. Mas estamos aqui,
distanciados, sobrevivendo. E creio que sou privilegiada por não ter tido
perdas entre meus queridos ou sofrendo necessidades básicas.
Quando vejo meus pais, com a mobilidade reduzida ou quase
nula, sei que sentem falta do contato físico com a gente, com os netos, com
todos da família. Sei que queriam estar apertados de tantos abraços,
entrelaçando os braços nos nossos ou recebendo mil beijos no rosto até perder
as contas.
Fico triste por isso. Imagino o que devam estar pensando,
prevendo, sentindo. Aí vem minha mãe e diz: “Mil dias”. Ao perguntar-lhe sobre o que estava
falando – já receosa por imaginar que seria o tempo que ela acreditava que iria
demorar para a pandemia ir embora – ela me responde, com olhar carinhoso: “Mil
dias. É o tempo que vai levar para colocar em dia os beijos e abraços com todos
vocês.” E me lembrei que há um tempo disse a ela, quando exprimiu tristeza por
não poder nos beijar e abraçar: “Vai fazendo a soma de quantos beijos estamos
devendo, ok?” Achei que havia sido uma solução interessante para aquele
momento. E só. Mas ela guardou aquilo como um mantra.
E eu aqui, muitas vezes me lamentando pelo agora quando ela,
do alto de seus 90 anos, vislumbra um futuro de mil dias de abraços e beijos. Quanto
aprendizado! Quanto amor cabe dentro de um coração!
Renata Taffarello

Lindeza! Quanta emoção as palavras podem passar ! :)
ResponderExcluirObrigada, querida!
ExcluirQue lindo ,que sensatez lucida esses nossos amados pais e mães que ja passaram por muito ,mas ainda nos surpreende com essas palavras!
ExcluirObrigada pelo carinho!
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