Eu quero mais é saúde

Hoje resolvi fazer uma limpeza. Daquelas de abrir todas as gavetas, armários, ver o que não me serve mais, o que nunca serviu e guardava não sei por que motivo, o que nunca vai servir. De repente fui abrir a gaveta da cômoda onde guardo meus exames. Sim, tenho uma gaveta de exames, cheia daqueles diagnósticos de ultrassom e tomografia gigantescos que não cabem em lugar nenhum e por sorte (ou azar) se encaixaram direitinho naquela última gaveta da cômoda que era incômoda para abrir e fechar.

Não me lembrava mais que tinha essa gaveta. Quero dizer: a gaveta está lá, sempre esteve, mas até por ser a última lá embaixo (o que é muito considerando meus 1,80 m de altura), na verdade, não me lembrava de seu conteúdo. Estava pesada. Radiografias, tomografias, ultrassonografias e todas as grafias médicas e laboratoriais que fizeram parte da minha vida. Confesso: me assustei. Cheguei a ter quase uma necessidade de ir ao médico para ver se não estava vendo coisas. Tantos exames guardados!

Sei que os filmes de radiografia devem ter uma destinação correta para o descarte. Então, resolvi abrir um a um para ver o que precisaria ser guardado e o que poderia descartar. Foi quando me dei conta de que eu tenho muita saúde. Os exames me fizeram rever alguns filmes (sem trocadilhos, mas no sentido figurado) da minha vida. Eu me lembro de todos, é lógico, mas não é algo que passe pela minha memória o tempo todo. Então, vi que realmente passei por alguns maus bocados, ou, pelo menos, complicados: algumas cirurgias, outras síndromes (incluindo até uma raríssima), sonhos que se foram, vida que recuperei.

A princípio, me bateu uma tristeza por lembrar destes momentos, mas depois, ela foi instantaneamente substituída por uma imensa alegria e vontade de viver. É passado, em todos os sentidos. Passei por isso e já passou. Estou aqui, viva, bem, saudável e tudo foi feito em seu devido momento. Por que eu guardei todos os exames? Também fiquei me perguntando (lógico, alguns precisamos guardar para acompanhamento) e não sei se tenho uma resposta. Talvez seja por insegurança; talvez por não querer apagar uma parte da minha vida que, apesar de difícil, foi prova de superação; talvez simplesmente por falta de tempo ou preguiça. O fato é que, hoje, percebi que tudo chega e tudo passa mesmo. Ouvi muito isso das pessoas em momentos complicados e realmente é verdade.


No fim das contas, joguei tudo o que não precisava mais guardar e fui ouvir Rita Lee: “Me cansei de lero lero. Dá licença mas eu vou sair do sério. Eu quero mais saúde!”

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