Colher de mãe
Estava lá eu, na casa da minha mãe, fuçando nas gavetas da cozinha
que eu sabia de cor o que continham na época em que eu morava com ela, mas que
agora mudaram um pouco de conteúdo, quando me deparo com uma peça que me deixou
emocionada: uma colher de pau. Sim, uma simples colher de pau, mas que de
simples não tem nada. Uma colher de pau com pelo menos 35 anos de idade.
Era o presente que eu tinha feito pra ela, no Colégio São
Vicente de Paulo, na aula de Educação Artística, como lembrança de Dia das
Mães. Não sei como as escolas hoje comemoram esta data, creio que com toda a importância
que lhe é devida, mas naquela época digo que era muito gostoso preparar o
presente para o Dia das Mães, da mesma forma que para o Dia dos Pais.
Era uma lembrança, nada muito complexo, normalmente um
objeto que comprávamos (com o dinheiro do pai ou da mãe mesmo!) e que
personalizávamos com algum tipo de arte. Nesta colher de pau, pintamos uma
carinha e colocamos um cabelo de lã amarelo com tranças. Era para deixar de
enfeite. Hoje, quando abri a gaveta e vi a colher (sem o cabelo, afinal, nem as
colheres escapam dos sinais do tempo...), que provavelmente estava ali em uso,
como os outros talheres, ou simplesmente por guardar de lembrança, um filme me
passou pela cabeça. Um filme bom, saudoso, que mexeu muito com meus
sentimentos.
Logo comentei com minha mãe e ela se lembrou na hora, pois
mesmo do alto de seus 85 anos, a memória dela é ótima (melhor que a minha,
muitas vezes). Mas tem coisas que ficam guardadas nas gavetas de nossa emoção,
da alma, do coração, e esta, assim como toda aquela época de infância, do São
Vicente, do Mingo (meu irmão que estudava comigo no colégio na época, meu
amigo, companheiro, que está comemorando o Dia das Mães hoje junto com muitos
outros anjos).
E já que aquela época não vai mais voltar, resolvi deixar o
saudosismo de lado (não as saudades!) e fui inventar outro bom momento,
carinhoso, com amor. Fui fazer café, abrimos um bolo de cenoura delicioso e
sentamos à mesa, eu, ela e meu pai, exatamente como há 35 anos, como todo o
aconchego de uma tarde de outono na cozinha da casa da mãe.
Comentários
Postar um comentário