Pessoal, estou estreando hoje o blog, com a intenção de dividir algumas passagens, memórias, curiosidades e emoções. A vida em condomínio não é fácil e, talvez por isso mesmo, é uma grande fonte de inspiração para crônicas. Assim, vamos lá. Inauguro agora a série de crônicas Vida em Condomínio. Ah, embora os nomes sejam muito parecidos, as histórias não têm nada a ver comigo, minha família, cachorro, meu condomínio....... 

Vida em Condomínio - Crônicas da Taffa

A planta nossa de cada dia

E eis que, num calor de 34 graus, numa sequência de um mês que não faz menos do que 30 graus nessa terra que costumava ser fresca, o vizinho de Regina chega com uma nota fiscal de R$ 180,00 para rachar as despesas das tais plantas que dividem as duas casas do condomínio. Detalhe: só é permitido plantar o que está estabelecido em convenção do condomínio – sim, existem regras até para as plantas – e o vizinho, que adora jardinagem e tudo, achou por bem colocar uns pequenos arbustos e uma árvore que, coitada, de tão magra, precisa sempre de uma vareta amarrada ao seu tronco pra não pender para um lado ou outro.

As plantas não estão na lista das permitidas. Provavelmente terão de ser arrancadas daqui a um tempo, quando dona Marilda, a síndica, que adora dar broncas por e-mail num linguajar questionável, enviar mais um de seus comunicados do tipo “certas pessoas que plantam o que bem entendem em frente às suas casas não estão seguindo as regras do condomínio e vão deixar nosso espaço horroroso e sem padrão, e, por isso, serão punidas com a multa tipo B. Chato, né?”. Ah, aliás, dona Marilda adora terminar os e-mails de broncas (são a maioria, na verdade), com a expressão “Chato, né?”. Os comunicados são sempre em forma de indiretas aos 300 condôminos, não importa se apenas um “transgrediu” as regras. E a figurinha que irá ilustrar o e-mail, provavelmente, será um homem com cara de vitorioso, rindo, ao lado de sua Baobá recém-plantada, com a enxada jogada no chão e a terra ainda mexida.

Há também a possibilidade de Edmundo, o vizinho, ter de arrancar as suas plantas – ou “nossas”, quando se refere ao compartilhamento que ele insiste dizer que foi alinhado com Regina e seu marido Lucas – para a instalação da cobertura da garagem, um pergolado mais caro do que a pintura da casa toda que só irá cobrir parcialmente um dos carros, mas que foi aprovado em assembleia.

Ok, vamos combinar, Regina e Lucas não participam de nenhuma das assembleias. Foram apenas à primeira, ainda antes de serem moradores oficiais, quando a pauta incluía um item fundamental: a possível proibição de ter cachorros no condomínio. Como assim? E o Brutus, o labrador preto mimado do casal? De jeito nenhum. Acho que funcionou, pois a maioria votou pela permanência dos cães, com exceção de algumas raças, como pit bull ou mastim, pelo que Regina se lembra. Se bem que, hoje, ter alguns cachorros bravos no condomínio, só pra assustar algumas pessoas, não seria nada mal... ah, não, que maldade! Nem pensar, deixa pra lá!

Bem, voltando às plantas do vizinho, Regina não se lembra de ter “alinhado” com Edmundo e Terezinha a divisão das despesas. Aliás, ela e Lucas não são muito bons para cuidar de plantas, todas morrem em sua casa. Por isso, nem as têm mais. Arrancaram tudo o que é vivo do quintal e deixaram só piso frio. Dentro de casa, algumas violetas que ganharam do tio Hélio insistem em sobreviver – até o tio Hélio já foi dessa para melhor – apenas com as regas da faxineira. Então, como é que iriam dar alguma opinião sobre árvores? Não, definitivamente isso não foi combinado. Lucas se lembra de o vizinho, quando pensou em colocar as malditas plantas (sim, agora são malditas), ter comentado qualquer coisa com ele, mas sua resposta foi algo do tipo: “Ah, faça o que quiser. Eu e a Regina não ligamos para plantas. Para nós não adianta ter plantas”. Meu Deus, será que isso, na interpretação de Edmundo, foi: “Sim, vocês são ótimos para escolher plantas e cuidar delas, então, plantem que nós fazemos questão de rachar as despesas”?

E agora, pagar ou não os R$ 90 que, na cabeça de Edmundo, cabem ao casal vizinho? E justamente por aquela árvore que, vira e mexe, pende seus galhos magrelos para a passagem de entrada da casa de Regina e ela, que tem 1,80m de altura, tem de abaixar para passar? E que faz com que ela, quando retorna do passeio diário com Brutus, tenha de puxar o cachorro de 45 quilos, que não foi treinado para passear, para que ele não faça a última gota de xixi que sobrou em sua bexiga em cima da pobre planta do vizinho? Melhor ela começar a rever seus conceitos. Mas a planta não tem culpa, coitada! Vai morrer afogada no xixi só por causa de uma definição sobre “sua” ou “nossa”? Não, maldade de novo.


É, acho que a vida em condomínio deixa as pessoas más. Os pensamentos macabros vivem passando pela cabeça de Regina e Lucas. Ele sempre foi mais radical com suas ideias e ela era mais na linha do “deixa pra lá”. Mas agora, depois de quase quatro anos de convivência com os 300 vizinhos e a síndica louca, ela realmente mudou. Ela e Lucas pensam igual agora. Até na decisão de não dividir os R$ 180. Pronto, decidido. O vizinho já sabe. Não falou mais nada. Resta agora saber se a árvore vai continuar com o suporte ou se vai pender totalmente para o outro lado. Bom, o cachorro continua saudável e com a bexiga sempre cheia...

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