Dando sequência às crônicas da série "A vida em condomínio"...

Se melhorar, piora


Eles gostam mesmo é de praia, mas, com um calor destes, por que não aproveitar a piscina do condomínio? É bacana, a água – é o que dizem e eles pagam por isso mensalmente – é tratada com ozônio, o que evita as alergias de Regina com o cloro, e está a dois minutos da porta de sua casa. Puseram a roupa de banho, pegaram toalha, óculos, chapéu e um livro cada um. Ah, Lucas é aficcionado por livros e não deixaria sua leitura nem à beira da piscina – ou muito menos!

Os cartões magnéticos, uma evolução que segue as últimas tendências em piscinas de condomínios, segundo dona Marilda, a síndica, não funcionaram. Antes eram carteirinhas, que as mocinhas que ficavam na recepção da piscina recolhiam e, mesmo assim, anotavam os nomes dos moradores numa lista. Depois, misturavam todas sem nenhuma ordem lógica, o que obviamente atrasava a devolução para quem saísse – para ir embora ou apenas por alguns minutos para ir ao banheiro.

Depois de Regina e Lucas terem abaixado para passar sob a catraca, enfim, chegaram à tão esperada e refrescante piscina. Era cedo para um domingo: 11 horas. Como o dia já havia amanhecido bem quente, todos os banhistas deviam estar debaixo d’água, pensaram, pois o que se via era só toalhas, chapéus e milhares de quinquilharias nas cadeiras, mesas, quiosques. Cadê o pessoal, nossos vizinhos?, questionavam-se. Quem sabe hoje seria o dia em que eles, mesmo após dois anos morando naquele condomínio, iriam fazer alguns amigos por lá, se enturmar, afinal, eles praticamente não tinham amizades ali e só conheciam por nome alguns cães do condomínio, assim como muitos sabiam que eles eram os “pais” do Brutus.

Nada... estavam sozinhos, acompanhados apenas por toalhas e tranqueiras – muitas toalhas e tranqueiras. E sem nenhum lugar sobrando na sombra ou sequer em alguma cadeira ao sol para eles se espreguiçarem um pouco, fazer sua leitura. O negócio era cair na água logo de cara mesmo, como quando eram crianças, quando íam à praia e não tinham paciência e nem a intenção de ficar tomando sol e jogar conversa fora. E foram. Nada mal, a água até que estava boa para aquele horário, mas o sangue começou mesmo a ferver em alguns minutos quando os donos das tralhas chegaram, após terem acordado cedo para ir à piscina guardar seus devidos lugares e retornar à casa para tomar café tranquilamente com pão fresco que o pai foi buscar de carro na padaria.

Aos poucos, a família foi se acomodando. A primeira foi a avó, que foi passar o fim de semana, o que a mãe agradeceu a Deus, para não ter de ficar tomando conta das crianças com seus amiguinhos e poder dormir até mais tarde. E lá foi a senhorinha magrela, com sua camiseta e shortinho, sentar à sombra de um dos quatro quiosques que havia “reservado”. Sim, todos os quatro da piscina.

E logo a turma foi chegando: primeiro os netos e seus amigos, depois o pai, a mãe, a amiga da casa ao lado com quem eles têm amizade e até combinaram de fazer a vaquinha pra levar os sanduíches feitos com o pão fresquinho “do dia”, e seu marido. Os casais se entrosaram tanto na conversa que sobrou para a avó dar as broncas na criançada que pulava, gritava e espirrava água de um jeito não muito legal nos outros (Regina e Lucas, no caso). Mas ela não foi muito eficiente nessa tarefa, pois o “casal sem filhos” (sim, Regina tinha certeza que os vizinhos se referiam a eles dessa forma) não demorou muito a decidir voltar para casa. Ou foi tão eficiente que fez com que a piscina ficasse toda para a família e os amigos convidados, e não estranhos, sem filhos, que levam livros pra piscina. Quem leva livros pra piscina, oras?!

Depois desse dia, a vontade de ir à piscina, que já não era assim tão grande, diminuiu, mesmo pagando uma fortuna de condomínio, acima da média dos conjuntos residenciais próximos dali. Foram mais umas três vezes, naqueles domingos quando ficou insuportável permanecer dentro de casa, tamanho o calor que aquela cidade vinha enfrentando, o maior da história. Mas já foram preparados para passar por baixo da catraca, jogar suas coisas num cantinho sob a pequena sombra dos pingos de ouro (isso era um direito deles, eles também pagavam pelas plantas da piscina) e pular direto na água.

Até que foram dias bons. Em um dos dias, por milagre, conseguiram cadeiras e puderam ler seus livros e tomar as Stellinhas que levaram na bolsa térmica. Um dia marcante, histórico. Depois receberam (eles e todos os 300 condôminos) um e-mail da dona Marilda, daqueles que só ela sabe mandar, dizendo que “se certas pessoas levarem garrafas à piscina serão punidas. Chato, né?”. Ah, dona Marilda, o que seria dos condôminos sem seus comunicados delicados e profissionais?!

Mas o melhor mesmo, para Regina e Lucas, ainda continuava a ser a viagem de três horas e meia rumo à Caraguatatuba, na casa da sogra de Regina, dona Sônia, para tomar quantas garrafas de Stella quisessem, de vidro, lata ou papel, se fosse possível, ler quantos livros viessem à cabeça (ou às mãos) na sombra de uma árvore ou em uma rede na garagem da casa. E o melhor: se deparar com crianças gritando e pulando, avós tentando dar bronca, mães e amigas guardando lugares, nenhum vizinho, todos completamente desconhecidos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mil dias

Eu me preocupo com você

Um par de ouvidos