Café, pão e um grão


 “Por que você mora na rua?”, pergunto. Depois do silêncio que acompanha um olhar perdido, Samira me responde, pela primeira vez introspectiva naquela manhã: “Drogas”. Percebo um misto de sentimentos em sua resposta: culpa, medo, tristeza, indiferença. Por que ela teria de dar uma resposta tão sincera a uma pessoa que havia visto pela primeira vez? Rolou uma empatia entre nós, coisa do momento. Fui puxando conversa até sentir uma identificação. Ela já tinha se servido do cafezinho com lanche que entregamos e esperava pela distribuição de roupas. Quem sabe naquela sacola haveria um vestido?! “Faz oito dias que não troco de roupa”, havia dito minutos atrás.

Um café, um pão, uma conversa, uma escuta, uma peça de roupa, um ombro - não no sentido literal da palavra, pois guardamos o distanciamento social exigido em épocas de coronavírus. Assim começamos uma ação entre amigos, procurando levar aos que vivem na rua um pouco do que temos para dar. Sabemos que ali há histórias diversas - nenhum glamour, diga-se de passagem -, muito a ser criticado aos olhos de tantos, muitas razões para aqueles que se encontram em situação de miséria ou, talvez, nenhuma razão. Não importa. Ninguém merece começar o dia de estômago vazio. Um café, um pão e um pouco de afeto é o mínimo que um ser humano precisa para ter dignidade.

Quem sabe, ao levar nosso kit de mantimentos nestas manhãs, conseguimos modificar uma vida, de alguma forma?! Forrar o estômago para dar força e coragem para alguém seguir adiante e ir atrás de uma solução. Levar conscientização sobre higiene para evitar uma doença. Levar a oportunidade de dar um sorriso. Levar atenção para quem quer sair da invisibilidade por alguns minutos. Não importa. Transformar uma vida já terá valido a pena. E vou dizer: a solidariedade contagia. Espalha. Envolve.

Só é preciso ter isso em mente para continuar nossa ação, simples, pequena diante de tanta necessidade, mas que pode fazer uma grande diferença na vida de alguém.

Quando já estávamos quase de saída, Samira me chama e diz: “Bonito o que vocês fazem. Um dia também quero ajudar um irmão, fazer boas ações” Quem sabe aquele cafezinho com leite e o vestido curtinho e colorido que ela pegou pra si estaria carregado do sentimento de solidariedade, doação e amor ao próximo?! Quem sabe foi um grão, uma semente plantada, para que Samira cuide de si, primeiro, para depois ajudar outras pessoas na mesma condição?! Gosto de acreditar nisso. É essa fé que me move. Gratidão por tanta gratidão!

Comentários

  1. O melhor de tudo é que vc plantou um sonho no coração dela...

    ResponderExcluir
  2. Que lindo o que vcs estãi fazendo, além do alimento do corpo também alimentam a alma.

    ResponderExcluir
  3. Re que coisa mais linda me emocionei com seu texto....

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Mil dias

Eu me preocupo com você

Um par de ouvidos