Apenas um beijo
Uma vida inteira. Para guardar. Para experimentar. Para
aprender. Para ensinar. O que será a velhice? Tenho pensado a cada dia mais
sobre esta fase da vida. Cada dia que convivo com meus pais, e até meu cachorro,
a reflexão me vem à mente. Sou abençoada por tê-los ainda comigo: meus pais com
87 cada um e meu cachorro com 14, o que, para um labrador de 53 quilos, talvez
seja o equivalente a uns 100 anos de idade.
Fico imaginando o quanto a memória de meus pais ainda
guarda, o quanto o corpo já carregou, o quanto o coração já se emocionou. Vejo o
cansaço em seus olhos e o peso de seu corpo, que agora se sacrifica para tantos
movimentos que antes eram tão simples. Vejo se esquecerem de coisas sobre as
quais me pergunto – “mas como é possível?” – e que depois compreendo, achando
que talvez a memória seja tão fantástica a ponto de ser seletiva nessa fase da
vida.
Agradeço quando penso em tudo o que aprendi com eles, mas
especialmente pelo ensinamento que a velhice deles tem me proporcionado agora,
neste momento. E aí novamente me pergunto: “mas como é possível estarem ainda
de pé, aqui, com tantos tropeços e percalços da vida?” Sim, só pode ser pelo
fato de terem ainda muito a ensinar.
Acredito que estou aprimorando minha capacidade de cuidar,
de amar, de ser paciente. Confesso que há dias em que as coisas parecem não
fazer sentido e o cansaço bate. A aflição às vezes toma conta de mim quando
tento entender o que está faltando, o que pode melhorar, o que eu posso fazer
para dar mais conforto, ao olhar nos olhos agoniados e tristes de minha mãe,
que viu dois de seus filhos a deixarem nesta vida. Que tanto confortou os
outros com suas doces palavras e agora, às vezes, não sabe se expressar apenas
para dizer que quer mudar de posição para minimizar as dores nas costas.
Mas na maioria das vezes é compensador. E pequenas coisas
fazem agora tanta diferença! Como quando consigo arrancar um sorriso do rosto
deles, quando conto uma piada boba ou compartilho algo engraçado que vi ou
ouvi. Quando elogio o arroz doce que meu pai ainda faz e que me rende sempre um
potinho para trazer pra casa. E tudo vale a pena quando, em um momento de incompreensão
sobre o que minha mãe quer quando me olha aflita, e eu acho que não terei a
resposta para a simples pergunta – “o que a senhora quer?” – ela me responde,
apenas: “Um beijo.”
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