Doces Natais





Tínhamos que descer um degrau para entrar naquele quartinho e, uma vez lá dentro, tudo se transformava. Era o quartinho da magia, da fantasia. O quartinho “extra” daquela casa na Chácara das Flores que já fora um barracão e, com simples divisões de alvenaria, novos revestimentos e muito amor, se transformou no mais aconchegante e delicioso lar da minha infância.
Lembro-me de brincarmos muito naquele cômodo, de estar lá enquanto minha mãe costurava, de nos juntarmos naquele espaço minúsculo na véspera de Natal enquanto minhas irmãs, vestindo seus roupões e toalhas enroladas nos cabelos, faziam as unhas e, minha mãe, os últimos ajustes dos vestidos que havia feito pra usarmos naquela noite. Aliás, sempre havia algum ajuste pra fazer no dia 24 de dezembro e acho que ela deixava esse restinho de costura de propósito, só para caracterizar o clima de véspera de Natal. Ah, naquelas tardes, o cheirinho de panetone invadia toda a casa.  E dona Eliza, com toda sua calma, se dividia em duas: a costureira dos últimos ajustes e a quituteira.
Os panetones eram muitos, como tudo o que ela cozinhava. Era panetone de presente pra todo mundo. E nós ajudávamos a embrulhar com os papéis dos ovos de Páscoa que havíamos guardado especialmente pra tal finalidade. Sem contar os minipanetones que ela fazia nas latinhas de leite condensado adaptadas como forminhas e que ficavam perfeitos para presentear as crianças.
A cozinha dividia espaço com o quartinho, não na casa, mas no coração de todos. Acho que vencia até, porque, além do coração, conquistava os paladares de todo mundo. Mas os méritos vão pra cozinheira de mão cheia que a comandava.
Esperávamos a véspera do Natal com muita ansiedade, e não por causa dos presentes, mas de tudo o que vinha embutido com essa data, que, para minha família, foi sempre comemorada de maneira muito especial. À tarde, nossa casa era sempre o ponto de alguma parada das vias sacras que nossos amigos e parentes faziam nesta data. E, para recebê-los, sempre havia panetones feitos na hora, “aperitivos” de algum assado que iríamos comer à noite, com a desculpa de testar para ver se estava bom, bolo inglês, sidra e muita conversa boa jogada fora.
Meu pai nos obrigava, eu e o Mingo, a tirarmos um cochilo à tarde para ficarmos acordados à noite, já que o Natal, na casa da Vó da Ponte (o carinhoso apelido da vó Ucila, que morava no bairro Ponte São João), iria se estender madrugada afora. E ainda teríamos a nossa via sacra, que incluía, depois da meia noite, uma parada na casa da tia Nena. Íamos para a beliche do quarto que dividíamos e apenas fingíamos um sono, só para não contrariá-lo. Mas na verdade, ficávamos brincando, tramando, ansiando pela festa da noite. E de alguma forma conseguíamos ficar acordados a noite toda. O organismo já se preparava, imagino.
No dia seguinte, repeteco da comida, com algumas “reformas”, no almoço que ocupava a gigante mesa do terceiro barracão da chácara. Sim, o almoço era ainda mais especial porque acontecia sempre na nossa casa. Eu não via a hora de acordar pra ajudar a preparar tudo e, assim que os convidados iam chegando, a casa ia se enchendo de alegria, cheiros e sabores. Na arrumação da cozinha, após o almoço, não havia regras, mas naturalmente todos se dividiam nas tarefas – até as crianças, pois era divertida toda aquela movimentação -, ocupando pias e outras torneiras e, num piscar de olhos, tudo estava arrumado e pronto para o café da tarde. A canja da Vó da Ponte era perfeita pra arrematar o cardápio do jantar e acho até que era o atrativo para que todos ficassem até a noite.
Depois, batia aquela tristeza, a sensação de que tudo havia acabado, de que o próximo Natal estaria muito longe, mas rapidamente era substituída pela alegria das férias, do verão, das festas de Ano Novo e tantos outros momentos que tenho guardados aqui com saudosismo, sim, mas com a enorme satisfação de tê-los vivido intensamente.

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